é estar vivo

por pedroambrosoli

ano passado, já não sei quando exatamente (ando contaminado pelo vírus do esquecimento), eu vivi uma experiência limiar ao andar da praça xv até a caixa cultural rio de janeiro num domingo para ir trabalhar. perto do menezes cortes, ouço gemidos, pequenas exasperações ao longe, sinto um tremer entranho nas pernas, pareceu vir do chão como um abalo sísmico que não consegui inicialmente visualizar a origem já que rapidamente se formou um conglomerado de pessoas em volta dela. mais próximo, eu encontro um morador de rua com sangue saindo de seu crânio, cabeça rente ao meio-fio. sem saber o que que fazer, como a maioria das pessoas no local, me paralisei. “ele tava andando e do nada caiu no meio fio, se tremeu todo” “epilético” “devia estar drogado” “deixa ele, os outros como ele darão um jeito nele” eram as palavras que ouvia que lembro. uma pessoa teve sã consciência de ligar para o samu. uma ronda policial se aproximou do local rapidamente, não tenho a mínima ideia de onde surgiram. ele já estava morto. não chorei, não soube o que sentir, só andar. fui para caixa, troquei minha roupa para o uniforme. subi as escadas em caracol. ao ver uma colega de trabalho, muito próxima e querida, Tati, senti a vida e chorei um lamento profundo.

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