movimentos de uma pedra azul

textos-trabalhos do artista pedro ambrosoli

Em busca das travessias

Na noite do dia 21 para o dia 22 de junho, eu fui presenteado com um sonho daqueles que são premonitórios daquilo que mais pulsa no inconsciente e que aguarda o momento certo para vir à superfície. Acordei embrenhado por cenas um tanto desconexas, um tanto caóticas. A primeira imagem e a que fiquei imerso foi a seguinte:

Eu, Joana Duarte e uma outra amiga, cuja identidade não retive quando acordei, estávamos numa praia de madrugada vestidos com roupas claras e portando apenas ecobags brancas. A maré estava baixíssima, parecia que o oceano inteiro estava secando na nossa frente como se o fenômeno das marés que revelam o trajeto ao monte Saint-Michel na França tivesse se expandido para o oceano que nos exibia um caminho a percorrer. Só restavam algumas poças de tamanhos variados em que pulavam peixes, camarões, polvos e golfinhos que procuravam desesperadamente a imensidão das águas.

Começamos a andar onde havia oceano de mãos dadas murmurando pequenas palavras que se perderam. Caminhamos até que o mar empeçou a voltar aos poucos em baixas ondas. Elas cresceram e nós corremos. Queríamos atravessar o oceano de qualquer forma, sob qualquer circunstância.

Mas as forças da natureza responderam contra. As ondas e os ventos estavam na direção oposta para onde trilhávamos. O que iniciou com ondas na altura do joelho se transformaram em ondas de mais de 5 metros que nos levaram de volta a costa, ainda de noite. Chegamos lá como saímos, de mãos dadas e incrivelmente secos e sem machucados. Só exaustos, com tonturas e atingidos por choros incontroláveis, que estiveram em outras cenas do sonho, não era um lamento, sim um descarrego. Estávamos aliviados por pisar na areia de novo.

Foi quando olhei dentro da minha bolsa, o que até então ainda não tinha me atentado. Estavam lá só livros, assim como nas bolsas de minhas companheiras de travessia que tomaram a mesma atitude que eu.

 Um dos livros que me lembro de achar na minha bolsa meio molhado foi A vontade de crer de William James (1984-1910) que é mencionado nos escritos sobre arte e experiência de John Dewey (1859-1952) que estive lendo nos últimos dias e que me proporcionaram momentos de muito conforto.  Nunca li o livro nem nenhuma obra de William James, mas as impressões que tive ao ler as resenhas e no que John escreve é que ele está entre a racionalidade e a espiritualidade, entre o empirismo e a subjetividade. James estava em casa no universo. Entretanto, o seu universo não se resumia ao que residia fora de si. Ele sabia, pois também empreendeu tal caminho, que haviam espaços infinitos também dentro de nós o que o encaminhou a pesquisar a psicologia humana. Neste texto, ele dá destaque ao miraculoso frente ao racional.

As buscas do milagre e do impossível me remeteram fortemente a um trabalho de Bas Jan Ader (1942 – 1975) que me foi apresentado em 2013 por Marcelo Campos numa aula de história da arte no Parque Lage. Este trabalho foi sua última realização, por sinal.

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Untitled (In Search of the Miraculous), Bas Jan Ader, 1974, serigrafia, 48 x 46.1 cm. MoMa, Nova York.

A trajetória deste artista aponta quedas e riscos. Ader nasceu numa pequena cidade holandesa chamada Winschoten e se mudou para Amsterdam em 1959, aos 19 anos. Em 11 meses de viagem num yacht, ele chegou Los Angeles em 1962. Lá ele estudou na Immaculate Heart College, e depois seguiu para a Claremont Graduate School.

Em 1975, o artista tentou atravessar o Atlântico numa obra que chamou In search of the miraculous. Ao escrever as próximas linhas, estive mergulhando nessa obra que até então só havia contemplado da praia.

Este trabalho foi dividido em três partes compostas por vestígios como fotografias, deambulações, uma exposição, anotações feitas durante as experiências e filmes.

A primeira parte ocorreu em Los Angeles em 1973 e foi chamada In Search of the Miraculous (One Night in Los Angeles). São registros de uma caminhada noturna em que ele procura algo com a luz de uma lanterna e que hoje existe enquanto fotos feitas por sua esposa, Mary Sue Ader Andersen, enquanto ele andava com trechos da música “Searchin’” de The Coasters por cima delas escritas por seu punho como nas imagens que se seguem.

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In Search of the Miraculous (One Night in Los Angeles) Bas Jan Ader, 1973, uma  de 18 impressões de gelatina de prata com texto manuscrito em tinta branca, 20 x 25 cm. Estate of Bas Jan Ader / Mary Sue Ader Andersen

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In Search of the Miraculous (One Night in Los Angeles) Bas Jan Ader, 1973, uma  de 18 impressões de gelatina de prata com texto manuscrito em tinta branca, 20 x 25 cm. Estate of Bas Jan Ader / Mary Sue Ader Andersen

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In Search of the Miraculous (One Night in Los Angeles) , Bas Jan Ader, 1973, seis de 18 impressões de gelatina de prata com texto manuscrito em tinta branca, 20 x 25 cm. Estate of Bas Jan Ader / Mary Sue Ader Andersen

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In Search of the Miraculous (One Night in Los Angeles), Bas Jan Ader, 1973, 18 de 18 impressões de gelatina de prata com texto manuscrito em tinta branca, 20 x 25 cm. Estate of Bas Jan Ader / Mary Sue Ader Andersen

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In Search of the Miraculous (One Night in Los Angeles) Bas Jan Ader, 1973, uma  de 18 impressões de gelatina de prata com texto manuscrito em tinta branca, 20 x 25 cm. Estate of Bas Jan Ader / Mary Sue Ader Andersen

A série termina com esta fotografia acima. Existem duas versões do trabalho, uma com 14 fotos impressas e outra com 18 que estão presentes acima. Em todas as fotos, Bas é fotografado de costas para câmera e de frente para paisagens abertas ou obscurecido pela escuridão ou em ângulos que não deixam muitas pistas de sua fisionomia como em muitas das pinturas românticas do alemão Caspar David Friedrich (1774 – 1840).

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Dois homens contemplando a lua, Caspar David Friedrich, 1819-20, Óleo sobre tela, 35 x 44 cm. Gemäldegalerie, Dresden

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Dois homens pelo mar, Caspar David Friedrich, 1817, óleo sobre tela, 51 x 66 cm. Nationalgalerie, Berlim.

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Nascer do sol ao mar, Caspar David Friedrich, C. 1821, Óleo sobre tela, 135 x 170 cm. Hermitage, São Petersburgo.

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No barco de vela, Caspar David Friedrich, C. 1819, óleo sobre tela, 71 x 56 cm. Hermitage, São Petersburgo

As fotos desta primeira parte foram exibidas em Los Angeles na galeria Claire Copley entre os dias 22 de abril e 17 de maio de 1975. Junto as fotos, estavam letras de canções marítimas do século 19, mesmo século das pinturas apresentadas de Friedrich.

Ader recrutou um pequeno grupo de alunos da UC Irvine, todos vestidos de preto, para cantar as canções com uma pianista na abertura da exposição. Ele fotografou a performance e projetou fotografias dela nas paredes da galeria. Essas imagens, que foram mostradas com o uso de um projetor de carrossel (aqueles como os que Nan Goldin usa em suas projeções) e foram acompanhadas por uma gravação de áudio da apresentação.

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Registro de ensaio na galeria e da performance no dia da abertura.

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Letra de A life on the ocean wave de Henry Russel, exposta na mostra.

Em 18 de abril de 1976, ele iniciou a segunda parte de sua busca indo direção ao mar num pequeno barco que ele deu o nome de Ocean Wave em Chatham, Massachusetts. Ele levava mantimentos, uma câmera e um caderno de anotações. Mary Sue Ader registrou sua partida nestas fotos clicadas do porto em o barco zarpou.

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Ele tinha o desejo de traçar o oceano até Amsterdam, onde depois exporia seus trabalhos no museu de Groninger.  Ele dizia que demoraria 60 dias para efetuar a viagem, caso remasse, e 90 se deixasse só o vento e as ondas agissem sobre seu barco. Seria o menor barco a atravessar o Atlântico até então.  Mary Sue Ader diz que “No fundo da minha mente, eu sempre segurava essa esperança: que ele simplesmente tinha desaparecido e iria voltar.”

Entretanto, ele nunca mais foi encontrado, só fragmentos de seu barco foram localizados meio submersos na costa da Irlanda dez meses depois da partida do artista. Segundo o capitão do navio pesqueiro que encontrou os destroços, Don Manual Castineira Alfeirán, o barco estava à deriva por cerca de seis meses. A família não chegou a ver o barco e confirmar se era realmente ele, pois este foi misteriosamente roubado antes deles chegarem ao local. Só em 2010, Mary Sue Ader teve a oportunidade de ver fotografias feitas por um tripulante do navio pesqueiro e ter a certeza que se tratava do barco de Bas. Nem seu corpo, nem o colete salva-vidas do barco, nem a câmera nem suas anotações foram encontrados, jazem no mar, uma vida numa onda do oceano.

A terceira parte do trabalho, nunca realizada, seria similar a primeira, só que o artista seguia sua busca noturna com lanterna por Amsterdam. Seria exposta junto as letras marítimas e uma apresentação de um coral alemão no museu de Groninger. Um ciclo que se fecharia, um mapa desenhado e um milagre performado.

Mary era uma colaboradora dos trabalhos de Bas e de suas buscas, era ela quem também filmava seus filmes, clicava as fotos e apoiava suas empreitadas. Ele traçava seus trabalhos em sua mente e juntos eles executavam sem ensaios, no máximo olhavam as anotações que Bas fazia constantemente sobre seus projetos. No vídeo abaixo, ela nos presenteia com seu emocionante depoimento da convivência com o artista.

Só em 1985, houve a primeira exposição póstuma com trabalhos de Bas que teriam que aguardar até os anos 1990 para ganharem alguma atenção nos estudos sobre arte devido a um grande interesse em artistas conceituais por historiadores. Junto a esse interesse, veio um forte sensacionalismo de sua obra, especialmente por seu fim. Bas se tornou vários mitos e está até presente na atual edição da Bienal de Veneza (2017), Viva Arte Viva, curada por Christine Macel que tem como ímpeto celebrar a arte e os artistas. A Bienal disponibilizou o seguinte vídeo de Bas indo de Los Angeles para o porto de Cape Cod com seu barco Ocean Wave de carro.

De fato há uma melancolia atávica nas imagens de Bas, não aquela que paralisa ou anestesia a percepção, mas aquela que tem “uma premente tendência de se comunicar, que encontra satisfação no autodesnudamento.” como Freud percebeu na página 55 de seu estudo “Luto e Melancolia”, escrito sob o impacto recente da Primeira Guerra Mundial. É um estado pelo qual há a suspensão da temporalidade do mundo como nos singelos vídeos de Bas em que ele simplesmente cai de vários lugares como árvores e telhados. Porém, a melancolia de Ader foge dos extremos de sadismo, da autodestruição e narcisismo que Freud caracteriza ao estado melancólico.

Broken fall (organic), Bas Jan Ader, 1971, filme 16mm.

Quando adolescentes, eu, Joana e mais duas amigas criamos uma estória que éramos seres do espaço, de um planeta recém descoberto que continha muita água e que caímos na Terra como que tele-transportados para estes solos. Quem saberá se na noite do dia 21 para 22 de junho não estávamos tentando retornar a esse lar assim como Bas retornaria a Holanda através de In search the miraculous.

A palavra melankholia é a união de kholê (bile) e mélas (negro), seria a bile negra. Estranhamente, as águas do meu sonho também eram negras pela noite. A água é um elemento transicional, vinculado à transformação e ao inconsciente, assim como a cura.

O quadro melancólico de chorar ao pisar na areia do meu sonho é essa atmosfera curativa que Bas e Freud instauraram a seus modos no mundo. Ela se comporta como uma “ferida aberta” que escapa ao explicável nas palavras de Freud. A melancolia está encoberta por nuvens de incertezas.  É um esvaziamento do “sentimento de si”.

Entretanto, este processo de escoamento de si pode desaparecer repentinamente como promovido no meu ato de olhar dentro da bolsa, contemplar meu interior e descobrir a Vontade de Crer, o mundo fazia sentido novamente e pude seguir para a segunda parte do sonho.  Restabelece-se a realidade ao se dar nós nos fios soltos e criar colares a partir deles, é o que faz Joana Duarte, minha companheira no sonho em sua produção artística para a Maria Flor Acessórios.

 Muitos artistas contemporâneos beberam dessa água salgada de Bas e construíram suas próprias viagens rumo ao impossível. Uma em especial, Tacita Dean (1965-) fala que “Ele (Bas Jan Ader) acreditava na peregrinação. Ele acreditava que ir para o mar era a única coisa transcendental que havia deixado.”  A obra de Tacita me marcou profundamente quando tive contato na exposição a medida das coisas no Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro em 2013, pouco depois de conhecer Bas Jan Ader.

 

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Großsteingrab (Flutuante), Tacita Dean, 2009, pintura de quadro negro, impressão à base de fibra montados em papel, 234 x 448 cm.

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A Linha do Destino, Tacita Dean, 2011, linha vertical de cinco fotografias. Quatro em preto e branco e uma cor.305 x 98cm. Edição de 6

 

 

 

Tacita emerge junto ao interesse pelas obras de Bas, nos idos dos anos 1990 quando entra no circuito internacional por seu cinema analógico, por sua celuloide de 16mm, pela sua gelatina de prata, suas impressões e desenhos. E é muito conhecida por seu tempo que é tanto humano quanto cósmico onde as estâncias passadas, presentes e futuras cruzam-se e encontram-se em percursos subjetivos.

Ela é interessada nos artistas que admira, sempre prestando homenagens a eles a seu modo como na instalação Merce Cunningham performs stillness (in three movements) to John Cage’s composition 4’33’ with Trevor Carson, New York City, 28 April 2007 . Ela dedica esta peça a John Cage através de Merce Cunningham que tanto colaborou com Cage durante sua vida.

Tacita procura, muitas vezes, um “objeto perdido” como Freud deambulou em “Luto e Melancolia”. Seja o tempo da tecnologia analógica, seja a fábrica de filmes da Kodak, seja os vasos do ateliê de Giorgio Morandi, seja o raio verde, seja o silêncio de John Cage em Merce Cunningham, seja o palácio Monroe no Rio de Janeiro. Ela se faz enquanto ser de fala, fruto de uma perda. Ela filma e fantasia:

Em seus trajetos, Tacita encontra e constrói imagens arrebatadores como em Disappeaarance at Sea (1996) em que ela filme o anoitecer, desde o pôr do sol até a escuridão completa do interior do farol de St. Abb’s Head, em Berwickshire, na Escócia.

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Disappearance at Sea 1996 by Tacita Dean born 1965

Stils de Disappeaarance at Sea, Tacita Dean, 1996, filme anamórfico de 16 mm colorido,13 mins 9 segundos.

Foi nesse filme que ela resolveu abrir mão de vozes ao fundo de seu vídeo, o que lhe foi uma grande libertação segundo ela. Tacita escreve o seguinte relato sobre esse filme:

O farol de Berwick fica no final do cair. O cais estende-se mar adentro, bem além da cidade e bem além do porto. À medida que o trem serpenteia ao longo da costa na chegada a Berwick como um ponto no final do cais e imaginar a pequenez desse espaço fechado em relação à vasta  imensidão do espaço além dele: o espaço que é o mar.

O farol é o último sinal humano entre a terra e oceano, e foi construído em escala humana. No entanto, sua presença indica outro aspecto mundano do mar: uma outra noção de espaço, daquilo que nunca será domesticado pela humanidade, que mais parece a distorcida percepção final das coisas de Crowhurst.

À noite, você espera na escuridão pelas rotações do farol e tenta decifrar o tempo nos intervalos de flashes. Sem essa cifra, não há tempo. A “loucura do tempo” de Crowhurst, que o fazia acreditar estar flutuano pela pré-história, completamente sozinho numa implacável paisagem marinha muito distante do contato humano, só é possível de ser imaginada quando se está no último sinal da civilização, onde o oceano começa e a terra acaba num solitaário ponto de orientação.

 Da janela do farol, onde normalmente estaria a luz, é possível vislumbrar o rosto angustiado de Donald Crowfurst. Como o rosto humano na cara da lua, ele se torna a luz do farol, com seu olhar eternamente fixo no horizonte, enquanto contempla o mar.¹

Teighmouth electron (2000) foi filmado no Caribe quando Tacita procurava o barco do velejador cirato acima Crowhurst, ele saiu pelo mundo numa viagem fracassada e desapareceu ao mar assim como Bas. Ela encontra o barco, de mesmo nome que o vídeo, abandonado numa praia isolada na ilha de Cayman Brac. Sua obra percorre esses vestígios silenciosamente e detalhadamente, indo se distanciando até o barco e a ilha sumirem junto ao filme. Briony Fer fala que esse filme seria um “monumento às narrativas perdidas”

A viagem de Crowhurst foi parte da regata Golden Globe de 1968, promovida pelo jornal Sunday Times e premiaria o primeiro dos nove velejadores inscritos a realizar sozinho e sem escalas a circunavegação da Terra. Para sair das dificuldades que se encontrava, Crowhurst se inscreve na regata mesmo sem experiência como velejador profissional, mas com muito desejo e determinação em sua busca.

Ele deu o nome de Teighmouth eléctron seu barco em agradecimento ao apoio da cidade de Teignmouth no Reino Unido na construção de seu barco, um trimarã. Para Tacita, “sua história é genuinamente trágica e existencial”. Como Bas, Crowhurst levou uma câmera de vídeo e cadernos para anotações. Diferente de Bas, estes últimos foram encontrados junto ao barco.

Percebendo sua incapacidade de concluir a viagem de forma tranquila, ele começou a anotar coordenadas falsas para poder provar que havia feito a viagem completa e nesse processo foi perdendo a noção de tempo e de espaço, sofrendo uma “loucura do tempo” como Tacita fala, a melancolia. Sentindo-se um traidor de seus princípios, ele mergulhou no mar a centenas de milhas da Grã-Bretanha apenas com seu cronômetro de navegação. Segundo Tacita, ele levou seu relógio para saber o instante exato de sua partida. Segundo o filho de Donald Crowhurst, ele só escolhera estar com o relógio para afundar de uma vez e não ficar boiando no mar.

Tacita se refere ao acontecido como uma estória que “fala de fracasso humano, em pôr a saúde mental em competição com o oceano”. A imensidão não é para todos em todo momento. Não foi para mim na madrugada de junho, porventura seja um dia ou uma noite.

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Teighmouth eléctron (Cayman Barc), Tacita Dean, 1999, fotografia colorida, 68 x 89 cm.

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Teighmouth eléctron (Cayman Barc), Tacita Dean, 1999, fotografia colorida, 68 x 89 cm.

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Teighmouth eléctron, Cayman Barc, (J.G. Ballard), Tacita Dean, 1999, fotografia colorida, 68 x 89 cm.

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Esquerda: DIAMOND RING (Anel de Diamante), Tacita Dean, 2002, filme
16mm colorido sem som, 6’ (12 filmes, 27’’ cada).
Direita: THE GREEN RAY (O raio verde), 2001
Filme 16mm colorido, sem som, 2’ 30’’
Exposição no Palazzo Dugnani, Milão.

No filme a esquerda, Diamond Ring (Anel de Diamente), Tacita filma um eclipse solar. Feito em Morombe, no oeste de Madagascar, em 21 de junho de 2001. Exatos 16 anos antes do meu sonho (!). É um sutil registro de instantes em que a lua deixa de estar na frente do sol e deixa escapar fiapos de luz. É quando dia e noite convergem.Sobre esse vídeo, ela anota:

Tenho agora uma filosofia, gerada por uma necessidade, de que às vezes as coisas dão errado para que no fim deem certo. Então, quando estava nublado no dia do eclipse na Cornualha em 1999, isso me permitiu fazer o filme que todos concordaram ser muito mais eu. Ou, quando confiei, no fotômetro de uma câmera de outra época, meu filme quase esvanecido revelou-se mais autêntico para meu projeto do que qualquer coisa que eu pudesse ter produzido. Mas na hora, claro, essas situações indesejadas são insuportavelmente dolorosas e decepcionantes. Ser convencido pelas circunstâncias a tomar outro rumo nunca é fácil, e arrastar-se pelo caminho de Damasco antes do mais tênue sinal de conversão sempre exige alguma persistência, ou até mesmo fé.

E assim foi no verão de 2001, quando fiz inúmeros planos com meu amigo Dick de viajar até Madagascar ocidental para tentar mais uma vez ver o eclipse total do sol. Nós sobrevivemos ao cancelamento do nosso voo, sobrevivemos ao guia e a jornada, sobrevivemos a tudo e, naquela manhã de 21 de junho, até mesmo ao tempo. Mas então, durante o ápice do eclipse – durante aqueles tão esperados dois minutos e meio – a câmera tombou para frente e caiu. Dick e eu colaboramos em conjunto para causar esse acidente. Só queria escrever isso porque acho que ele poderia querer ser reconhecido pelo seu papel na produção de Diamond Ring. Basta dizer que fiquei paralisada pela decepção já familiar. Demorei quase toda a duração do ápice  para ter alguma reação, e nesse instante fiz algo que raramente faço, e que nunca deveria ter feito: dei um zoom. No exato momento em que finalizei o zoom, com o sol no meio do meu visor, a luz passou para a fase seguinte, liberando um fiapo de luz que superexpôs  meu filme e embranqueceu meu frame.²

O outro vídeo que está na foto acima é The Green Ray, filmado na mesma viagem a Madagascar em 2001. É um fenômeno que ocorre no exato momento que o sol se põe no horizonte. “O raio verde ocupou minha mente durante muito tempo”, ela disse para Hans Ulrich Obrist. Foi difícil filma-lo, ela tentou inúmeras vezes em várias partes do mundo e ele só acontece num frame do vídeo .

Assim como o farol de Tacita que se direciona ao mar, sua viagem rumo ao sol de Madagascar, a Melancolia I de Dürer (1471–1528) figura o mar no horizonte e nos transmite a inclinação dos melancólicos para as grandes viagens. Na reconstituição imaginativa de Dürer, chega-se ao pathosformel, uma fórmula de reelaboração de um trauma na tentativa de cura-lo.  Um movimento individual ao mesmo tempo que cultural, com sentido trágico, o problema patológico de morte.

Neste movimento de cura, Dürer, Tacita e Bas usaram como meio técnicas reprodutivas: a gravura no artista renascentista e a fotografia com gelatina de prata e os filmes 16 mm nos dois artistas contemporâneos. Em todos os trabalhos, são técnicas que tenderiam a desaparecer se não fosse a vitalidade dos artista que instaura a necessidade de instituições preservarem essas memórias, estes percursos.

Assim como William James, Dürer e Tacita Dean se encontram frente a racionalidade e a espiritualidade. Em Tacita, convivem as mitologias marítimas com seus percalços  mágicos e trágicos com as tecnologias de visão como a câmera e o farol. Em Dürer, uma mitologia greco-romana convive com a geometria e os estudos anatômicos de seu tempo. Neste estado, os dois artistas seguiram o movimento de Bas Jan Ader: continuar buscando.

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Melencolia I, Albrecht Dürer, 1514, gravura.  Metropolitan Museum of Art, Nova York.

 

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H540, Tacita Dean,  2015, giz em quadros de Masonite, 244 x 488 cm (cada)

 

O que se busca ou onde são questões que cada um dos artistas respondeu a sua maneira. Se é possível identifica-las, seus sintomas de sentidos de vida e/ou morte, eu não posso afirmar, mas posso mergulhar junto a eles e vive-las também como tentei aqui. Cada um pode ir ao encontro de suas quedas, de suas travessias. Mesmo não alcançando o fim, o processo é imprescindível e inviolável para ir de encontro ao miraculoso.

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Thoughts unsaid, then forgotten, Bas Jan Ader, 1973, instalação com prateleira de óleo, tripé, lâmpada, flor e vaso, dimensões variáveis.

 

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The Green Ray for Parkett 62,  Tacita Dean, 2008, Cartão postal colorido, assinado, numerado, carimbado e postado em Morombe, Madagascar.

Notas

¹DEAN, Tacita. Disappearence at sea. In: DEAN, Tacita. a medida das coisas. São Paulo: IMS, 2013. p. 23.

²Op.cit. p. 60.

 

Fontes da pesquisa

Catálogo da 30º Bienal de São Paulo: A iminência das poéticas/ curadores Luis Perez-Oramas … (et al). São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2012.

DEAN, Tacita.  a medida das coisas. São Paulo: IMS, 2013.

FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

http://revistacarbono.com/artigos/05-bas-jan-ader-glaucis-de-morais/

https://www.moma.org/momaorg/shared/audio_file/audio_file/1840/Amsterdam_304.mp3

https://www.moma.org/interactives/exhibitions/2009/inandout/artists.html

https://hyperallergic.com/336146/in-search-of-bas-jan-ader-the-artist-who-disappeared-at-sea/

http://www.tate.org.uk/whats-on/tate-modern/exhibition/tacita-dean-recent-films-and-other-works/tacita-dean-recent-films-12

OBRIST, Hans-Ulrich, Entrevistas: volume 3. Rio de Janeiro: Cobogó; Belo Horizonte: Instituto Cultural Inhotim, 2010.

corpos pintados em percalços

Cada quadro de Vinicius Gerheim é uma massa de carne, não só de tinta, mas de narrativas e orquestras corporais. Um retrato pintado por ele é formado no encontro com outros corpos, os vários que ele carrega dentro de si inclusive. Essa reunião é tanto feliz quanto traumática.
Não há pistas de onde nem quando estes seres divagam, eles existem por si mesmos, tem seus próprios tempos e espaços. Uma das características destas pinturas é nunca pretender narrar algo que não seja delas além das cores e afetos que lhes habitam.


Como referência para suas pinturas, o artista usa fotografias feitas por ele de seu corpo, relatando e pintando a si. Nesse processo, ele muitas vezes precisa se distanciar da tela, fotografando-a com a câmera do celular, mudando-a para preto e branco em seguida, para perceber a densidade dos tons e outras materialidades das imagens.


Vagando também pelos corpos-retratos de Egon Schiele, Lucian Freud e Francis Bacon, Vinicius Gerheim apreende deles o que lhe mais convém: a potencialidade da livre expressão de formas e afetos. É fascinado pela liberdade plástica que estes pintores dão aos retratos cujos corpos dançam os limites da tela sem coreografias ensaiadas, são vestígios de improvisos e perambulações pelas superfícies do corpo que beiram o informe assim como os movimentos instaurados dos quadros de Gerheim no presente espaço.


Nus por abandonar as vestimentas e os títulos, os códigos e os órgãos das barreiras sociais, os retratados existem na carnalidade que desejam, o que não diminuiu as angústias de suas existências. Isso os fez compreender a percepção dos volumes e pesos dos músculos, ossos e sentimentos.


Estes 37 corpos plásticos aqui apresentados são reservatórios de sentido, mananciais de formas de vida, germes de direções que extrapolam as estruturas de comando e os cálculos dos poderes constituídos que oprimem, que calam e que matam. Os reservatórios se comunicam e reforçam sua poderosa unidade na diferença pela qual resiste à tirania do meio social em que se inserem. São corpos pintados em percalços.

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Sem título, Vinicius Gerheim, óleo sobre tela, 60 x 80 cm, 2016

divulgaçãotexto da exposição individual de Vinicius Gerheim ‘corpos pintados em percalços”
Visitação: de segunda a sexta, das 9h às 19h. Em cartaz do dia 9 até o dia 30 de junho de 2017.
Centro Cultural Light
Av. Marechal Floriano, 168 – Centro – Rio de Janeiro

em 🌈 🌈 🌈 (orgulho)

Há dois anos, na mesa de café da manhã, meu pai falou ‘eu já sei de tudo’ quebrando um silêncio de muitos anos que permeava nossa convivência que eu e minha mãe mantínhamos através de muita dor. Desde então, outros mundos se abriram para nós dois, de menos jogos e mais sinceridades. O medo do coronel uniformizado da minha infância se transformou no carinho alimentado nas sutilezas.

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Respeitando nossas diferenças, pudemos acessar experiências muito sensíveis juntos como nessas duas fotos ( uma que ele tirou de mim e uma que que tirei dele) em que andamos perto do vulcão Pichincha em Quito no Equador, numa caminhada silenciosa em que cada um deixou se levar pela névoa que nos atravessava.

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Em 2016, eu tirei uma foto dessa rocha quando visitamos a região do Alagoas da família do pai dele. Eles migraram para o Rio junto a uma larga população de migrantes nordestinos no século XX em condições muito precárias. Esse passado era velado para mim, por ele considera-lo menor até então.


São tantas as singularidades históricas que cada um carrega que se prender a preconceitos e caixas é desperdício de vida. Dia 10 de junho é aniversário dele e o orgulho é nosso, das manas, monas, migas, migos, migues e todo mundo que se deixa abrir para o mundo e existir. 

é estar vivo

ano passado, já não sei quando exatamente (ando contaminado pelo vírus do esquecimento), eu vivi uma experiência limiar ao andar da praça xv até a caixa cultural rio de janeiro num domingo para ir trabalhar. perto do menezes cortes, ouço gemidos, pequenas exasperações ao longe, sinto um tremer entranho nas pernas, pareceu vir do chão como um abalo sísmico que não consegui inicialmente visualizar a origem já que rapidamente se formou um conglomerado de pessoas em volta dela. mais próximo, eu encontro um morador de rua com sangue saindo de seu crânio, cabeça rente ao meio-fio. sem saber o que que fazer, como a maioria das pessoas no local, me paralisei. “ele tava andando e do nada caiu no meio fio, se tremeu todo” “epilético” “devia estar drogado” “deixa ele, os outros como ele darão um jeito nele” eram as palavras que ouvia que lembro. uma pessoa teve sã consciência de ligar para o samu. uma ronda policial se aproximou do local rapidamente, não tenho a mínima ideia de onde surgiram. ele já estava morto. não chorei, não soube o que sentir, só andar. fui para caixa, troquei minha roupa para o uniforme. subi as escadas em caracol. ao ver uma colega de trabalho, muito próxima e querida, Tati, senti a vida e chorei um lamento profundo.

Profanação contra a Páscoa

Os preceitos cristãos são implementados na nossa sociedade com a marca abrasadora  da dor, da ferida e do castigo. Meu corpo como o de bilhões de pessoas carregam os vestígios de 2017 anos de torturas, genocídios e chacinas que continuam a acontecer e comandar grandes multidões. Somos corpos que vivem nossas existências e nossos desejos interpretados sob o signo do pecado e da culpa, fadados ao inferno.

Acredito ser mais que pertinente publicar um pequeno artigo do León Ferrari (1920-2013) que descobri  que não está disponível na internet. transcrevo aqui:

 

Sobre a dor dos outros

A dor dos outros ocupa um espaço amplo no cristianismo, no qual convivem a dor injusta do sofrimento de Jesus na Cruz e a dor justa dos ateus nos suplícios e extermínios relatados no Antigo Testamento e naqueles anunciados por Jesus no Novo Testamento: o diluvio, Sodoma, as pragas do Egito, a primeira invasão de Canaã, o Apocalipse, o Juízo Final, o inferno.

Em meio a esses dois conjuntos de práticas religiosas, prossegue a vida da humanidade, que por sua vez comete um terceiro tipo de violência: guerras, napalm, bombas atômicas, racismo.

Essas três manifestações das condutas humanas e divina deram origem a numerosas imagens. Aquelas que correspondem aos feitos relatados nos Testamentos – quadros, afrescos, esculturas – afiançaram o poder da Igreja e colaboraram na apresentação das violências bíblicas como sendo o merecido castigo ao diferente. Essas obras mostram uma singular diligência dos seus criadores em ilustrar as ideias dos deuses: Schnorr retrata o terror das mulheres e seus filhos diante do dilúvio; Doré, a morte dos primogênitos ; Giotto, um casa adúltero presos pelos genitais; Fra Angelico e Botticelli, Satanás comendo gente; Bosch, Bruegel Luca Signorelli, Dürer, Michelangelo e Rafael, as torturas que os outrora torturados anunciaram que nós, os infiéis, sofreríamos. Crédulos e ateus se abstêm de julgar a ética daquelas obras. Os crédulos porque aceitam que o diferente seja castigado. Os incrédulos porque, apaixonados pela estética, ignoram seus significados: se um quadro está bem pintado, não importa que exalte um crime. No mundo intelectual, mesmo entre ateus e pensadores livres, é comum a indiferença diante da intenção dessas imagens.  

Susan Sontag, em seu documentado estudo sobre a violência contemporânea, concorda com aquela indiferença diante das violências cristãs e, em algumas páginas, diante das ideias dos crentes.

Acredita que o sofrimento que a população civil padece à mercê de um exército vitorioso seja um tema “essencialmente secular, que surge no século XVII” (p.39). Segundo a Bíblia, trata-se de um tema ainda mais antigo e não apenas secular: o livro mais lido fala das torturas e mortes que Davi e Moisés impuseram à população civil, habitantes das terras invadidas, milênios antes do século XVI. (Doré mostra Davi em plena tarefa.)

Quando cita Bataille, afirma que se trata de

uma visão de sofrimento, da dor dos outros, que está enraizada no pensamento religioso e vincula a dor ao sacrifício o sacrifício à exaltação – uma visão que não podia ser mais alheia à sensibilidade moderna, que encara o sofrimento como um erro, um acidente ou um crime. Algo a ser corrigido (p.83)

Da leitura dos Testamentos se deduz que o principal uso da dor no cristianismo é o castigo: o Pai nos castiga com a dor pela desobediência de Eva e o Filho nos ameaça com mais dores se não o amamos. A sensibilidade moderna que considera o sofrimento, todos os sofrimentos ocasionados por nossos semelhantes, um crime, é aquela que não acredita na Bíblia: basta ler o catecismo oficial do Vaticano – que anuncia torturas sobre a alma, quando morremos, e sobre o corpo ressuscitado por Cristo no momento do Juízo Final – ou as pregações dos evangélicos, para conhecer o pensamento religioso, ou, pelo menos, essa linha de raciocínio.

De Jacques Callot, cujas imagens mostram que se compadece de quem sofre, diz que tem “sensibilidade humanista cristã” (p.40). Entre outros episódios (Inquisição, Conquista, Cruzadas, Processo, governo Bush), a sensibilidade humanista cristã encorajou durante milênios o antissemitismo ocidental, originado em grande parte no Novo Testamento com as ofensas de Jesus aos judeus, que não acreditavam na sua divindade. Aliadas a elas estão acusações de serem os judeus os autores de sua morte: acusação repetida durante dois mil anos em capelas, basílicas e escolas. O fruto dessas pregações foi o assassinato de milhões de judeus por Hitler (que afirma, em Minha luta: “Estou convencido de que ao me defender dos judeus estou lutando pela obra do Supremo Criador”), em um país composto de 94% de cristãos. As fotografias dos mortos nos campos de concentração nazista mencionados por Sontag são parecidas com os quadros de extermínios bíblicos, porém com uma diferença: os artistas de Hitler não pintaram afrescos retratando seus crimes para enfeitar salões ou para intimidar; por outro lado, os da Igreja nos mostram em suas lindas catedrais um Auschwitz imortal e bem pintado, para nos obrigar a amar os deuses que a administram.

Tenho grande respeito por Susan Sontag, por seus inteligentes ensaios e por sua conduta cívica. Não compreendo sua benevolência diante do cristianismo, cuja mais recente atitude é a invasão do Iraque, protagonizada por um país dirigido pela direita evangélica e tão cristão como aquele dos nazistas.

Artigo publicado no suplemento “Ñ” do Jornal Carín, em 21 de fevereiro de 2004.

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La civilización occidental y cristiana

León Ferrari, 1965, plástico, óleo e gesso. 200x120x60cm

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Juicio Final 

León Ferrari, 1994, papel impresso e excremento de ave, 150 x 120 x 12 cm.

[no title] 2001, reproduced 2007 by Léon Ferrari born 1920

Renovação

León Ferrari, 2001, papel recortado e colado sobre papel impresso, 43 x 29 cm.

Uma viagem pela iconologia:

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O juízo final e a missa de São Gregório

Mestre da família Artés,1500-1520, óleo sobre painel, 249×170 cm.

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O Juízo Final

Hieronymus Bosch (1450-1516) , circa 1482, Óleo sobre tábua, 163,7 cm  × 242 cm.

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Detalhe do Juízo Final

Fra Angelico (1400-circa 1455), tempera sobre madeira, 105×210 cm.

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Detalhe do Juízo Final

Giotto (1266-1337), 1306, afresco.

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Ilustração do Canto xIx da Divina Comédia  por William Blake (1757-1827).

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A expulsão de Adão e Eva do Paraíso.

Masaccio (1401 – 1428), c. 1424-27, afresco.

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Juízo Final

Michelangelo (1475-1564) , 1533-1541, afresco.

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O mundo destruído pela água

Doré (1832-1883), 1866, ilustração

Inferno

Yael Bartana (1970-), 2013, vídeo, 18’7”

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A praga da escuridão

Doré (1832-1883), 1866, ilustração

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Árvore de Sangue – Fogo que consome porcos

Thiago Martins de Melo(1981-), 2013, óleo sobre tela, 390 x 360 cm.

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Resurreição de Cristo

Rafael (1483-1520) , 1499-1502, óleo sobre madeira, 95,5 x 82,2 cm

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Ecce Homo ou Pilatos apresenta Cristo à multidão

Jacopo Tintoretto(1518 -1594) , 1545-1547, óleo sobre tela, 118×153,5 cm

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Purificação do templo

El Greco (1541–1614), 1570-1575, óleo sobre tela, 116,8 x 149,9cm.

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Cristo expulsando os cambistas do templo

Rembrandt (1606-1669), 1635, água-forte, 136 x 169 mm.

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Os réprobos lançados ao inferno

Luca Sgnorelli (1445-1523) 1499-1500, afresco.

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Punição dos rebeldes

Botticelli (1445-1510), 1481- 1482, afresco, 348,5 x 558 cm

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O martírio dos dez mil

Albrecht Dürer (1471 – 1528), 1508, Técnica mista sobre tela, 99 x 87 cm.

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O martírio de Santa Lucia

Rubens (1577 – 1640), 1620-1621, óleo sobre madeira, 29 x 43 cm.

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Madalena penitente
Artemisia Gentileschi (1593–1653), 1615-1616 ou 1620-1625, olho sobre tela, 146.5 × 108 cm.

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Madalena penitente

Caravaggio  (1571-1610)., 1596, óleo sobre tela, 122,5 x 98,5 cm

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A queda dos anjos rebeldes
Brueghel (1526/1530–1569), 1562, óleo sobre madeira, 117 x 162.

Nada levarei quando morrer, Aqueles que me devem cobrarei no Inferno

Miguel Rio Branco (1946-), 1985, filme 16mm transferido para DVD, som, 20’

Uma pele tecida sob o escorrer da Baba Antropofágica

Essa não foi a primeira vez que estive presente na realização desta proposição de Lygia Clark através do trabalho continuado O corpo como território do sensível da artista Maíra Gerstner. Na outra experiência, houve a força e disponibilidade incrível de Ana Paula Duarte, uma das residentes do Espaço Cósmico que sediou o trabalho, para receber a baba antropofágica.

Dessa vez, eu senti abertura nesse grupo de 10 pessoas e preparado para estar nesse lugar. Não preparado no sentido de ter conhecimento, nem me sentir num nível para o tal feito, foi na percepção de estar bem e confortável para isto.

No momento da roda antes da preposição, reconheci uma energia similar à do momento que levantei mais cedo para escolher minha dupla numa outra prática, havia uma tensão e um eixo gravitacional que me puxava. Me permiti entrar no fluxo, e adentrei o centro da dúvida.

Já pela proximidade dos outros corpos que se aproximavam do meu, percebi os afetos. Os toques coletivos em direção aos pés me ligaram a terra e sentei imediatamente, Maíra se aproximou e me sugeriu tirar a blusa, não hesitei em despir-me o que, em outras situações, acho que não me sentiria tão disposto.

Deitei, fechei os olhos e aguardei. Relaxei meu corpo, me desabotoei.

Os toques molhados começaram a vir, pequenas gotas geladas escorriam pela minha pele junto a finos fios.

Fui entrando nessas sensações. Nesse início, houve momentos que meu corpo se concentrava em apenas alguns fenômenos como a das salivas na mão que me levavam a memórias da chuva, principalmente as chuvas de verão que refrescam a pele quente, tiram a camada de suor dela e que se vai até a janela para se colocar uma das mãos para fora para se sentir as gotas caindo e se acumulando na palma da mão.

Uma outra sensação vivida foram a dos fluxos aquáticos do corpo, havia uma pulsão de vida que misturava a baba e o sangue do meu corpo e o dos outros participantes. No dia anterior ao trabalho, eu cortei minha mão esbarrando num caco de vidro perdido de uma garrafa quebrada na minha cama, estive diante do pulsar do sangue para fora do corpo, era um pouco isso que se passava nesses fluxos entre o sair e entrar de fluídos.

A sensação de água foi passando e transitando, uma zona negra aquática foi se estruturando na minha mente, parecia que nada estava acontecendo fora dela e eu me perdia nesta escuridão. Fiquei pensando se as pessoas tinham parado o babar e estavam a olhar meu corpo ou desenvolvendo alguma outra ação. Abri meus olhos um pouco, enxerguei que ainda estava no Casa do Cortejo, e as pessoas ainda estavam a babar sobre mim, me senti feliz e voltei a cerrar os olhos.

As imagens que vieram em seguida foram a do casulo e do exoesqueleto. Eu não posso negar que dentro dos seres vivos, os insetos em geral são os que tenho menos proximidade, há uma tensão quando estou perto deles, uma mistura de medo e aversão. Embora há dois casos recentes de admiração a eles como um gafanhoto que tentou sair pela janela do meu quarto mesmo esta estando fechada, ele ficava pulando contra ela, num trabalho hercúleo que seguiu até eu abrir a janela e ele pular para fora, com sua sobrevivência garantida por mais um tempo. Outro caso recente foi quando acordei e encontrei o cadáver de uma barata deitada no chão ao lado de minha cama que mais tarde foi levado por formigas num cortejo funerário que consegui registrar na foto abaixo.

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Um processo especifico da vida de alguns insetos que senti foi a criação de um casulo. Meu corpo criava um casulo para si ao mesmo tempo que ele era feito por outros, foi o primeiro momento que senti que os fios que estavam sendo tecidos sob meu corpo eram de todos e de ninguém.

Com o aumento da densidade do casulo, ele se tornou um exoesqueleto como o do gafanhoto do meu quarto, da barata morta, das formigas funerárias, das cigarras que cantam no calor, dos besouros que carregam mundos em suas costas. Esse embrutamento momentâneo me fez ter sensações de claustrofobia, um legado genético apareceu uma vez que meu pai é claustrofóbico. Eu não tenho essa característica de forma tão marcada, ela fica presente em mim em espaços de confinamento ou de alta concentração de pessoas sem muitas saídas. Neste momento, era uma armadura sendo colocada em mim.

Abri os olhos de novo e vi as sutilezas dos meus companheiros em suas tessituras, o conforto de um teto sobre minha cabeça, o carinho no ar. Voltei a interioridade.

Inicialmente eu me questionei se aguentaria ficar o tempo de todo o processo relaxado e deitado, sem mover meus membros nem minha cabeça. Não foi um aguentar mas um fluir que aconteceu, tiveram momentos que senti meu braço dormente e coceiras pelo corpo, entretanto havia uma energia maior que acalmava tudo logo em seguida que tornava a experiência do tato tão leve e protegida que essas sensações de incômodos da pele logo deram lugar a recebimento e desejo das linhas que se formavam sobre mim.

Essas linhas compunham uma verdadeira vestimenta sobre mim. Eu experimentei a sensação mítica do primeiro vestir-se. Imaginei o que vivia o primeiro ser humano ao colocar tecidos que ele sozinho ou com seus parceiros elaboraram de forma experimental, sem saber de silhuetas nem de cortes. Os confortos e as angústias desse momento. O prazer pela proteção, pelo calor. O desprazer por ter uma superfície que limita os movimentos e cria uma camada sobre os poros, leva a uma nova percepção filtrada do mundo.

Com esta vestimenta completa, eu sabia que ela sairia de cima de mim, fui aproveitando cada momento com ela. Choro ao escrever esse momento, vivo uma nostalgia do corpo? Lygia Clark foi tão viva em mim neste momento que ali eu estava descobrindo uma das minhas verdades desta obra, ela se inscrevia de vez sobre minha pele, talvez uma pele de papel vegetal como Maíra sugeriu.

Depois, as pessoas se reaproximaram de mim, esfregando suas mãos, formando calor. Reforçaram o contorno de calor que percorria meu corpo ao colocar suas mãos em mim. O momento da despedida se aproximava e isso me deixou feliz e contente.

Foram pegando os tecidos, levantando-o no ar e girando em roda. Era uma parte de mim e dos outros se levantando. Era um corpo morto que se suspende, uma pele e um manto, uma matéria-memória que se ergueu e girou e dançou em todos os presentes.

Desembaracei os olhos e sorri, rostos ganharam definição de novo, Maíra estava ao meu lado e olhava para mim. Se aproximou de mim e perguntou se estava bem, me disse para levantar em meu tempo. Contemplei a pele recém criada girar junto a risos de alegria ecoando pela sala.

Fui me deixando despertar e sentei. A camisa voltou a vestir-me e sentamos em roda. Demorei a conseguir falar, me expressar em português sobre o que estava acontecendo ou o que havia apenas ocorrido. Talvez demorar-me foi realmente um morar em mim como a sensível Virna disse na roda.    Meu olhos lacrimejaram e continuaram assim até o dia seguinte. De felicidade, de afabilidade, de cuidados.

 Mais tarde, já em casa, ao sentir a água do chuveiro escorrendo sobre mim, senti a baba se ajuntar a carne como a tinta de uma tatuagem e fui passando a mão e o sabão por todo o corpo para ajudá-la a firma-se. Ela já me veste aonde quer eu vá.

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um possível diálogo constelativo para 08/03/2017

1 O que é que você quer?
2 Você sabe o que é?
3 É possível? Não, por que não?
4 Está procurando substituto(a)? Por quê?
5 Qual?
6 Qual a relação entre o(a) substituto(a) e o Quê?
7 O que vem enquanto isso? morte? impossível
8 É melhor você saber a resposta a essas perguntas, senão
a)está perdendo tempo
b) está caminhando para uma decepção seguida por depressão
A recriação do Passado não vale a pena
tenha cuidado
tenha um pouco de coragem
coragem de esperar o amanhã e encará-lo
louise bourgeois (1911-2010) em seu diário em 1965.
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↑↓
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1

celeida02
passagem
celeida tostes (1929-1995)
1979
.
2

20090409141051_3065_large
sem título
mira schendel (1919-1981)
década 1960
.
3

Nao-te-esquecas-que-venho-dos-tropicos_Maria-Martins
não te esqueças que venho dos trópicos
maria martins (1884-1973)
1945
.
4

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é o que sobra
anna maria maiolino (1942-)
1974
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5

um, nenhum, cem milk
um, nenhum, cem mil
anna maria maiolino (1942-)
1993
.
6

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o impossível III
maria martins (1884-1973)
1946
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7

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cair em si
márcia x (1959-2005)
2002
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8

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caminhando
lygia clark (1920-1988)
1964